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Quinta-feira, 10 de Maio de 2012

Rita Pereira e François Hollande: Playboy

Rita Pereira e François Hollande têm um problema semelhante: mostraram muito pouco. A atriz despiu-se para a estreia da Playboy portuguesa, mas só lhe faltou usar gola alta. Nunca se tinha visto alguém tão tapado na Playboy; as redes sociais, justamente, andam numa indignação nunca vista.

Hollande passou mais de dois meses na estrada, em campanha eleitoral, ontem ganhou as eleições a Sarkozy, mas na verdade sobre o que vai fazer sabemos muito pouco ou quase nada. Podemos tentar adivinhar, podemos valorizar as declarações mais fortes – como exigir já as obrigações europeias – ou, digamos, as mais práticas, como dar mais tempo aos vários países europeus para que reduzam os défices públicos de forma mais gradual.

No entanto, entre as duas opções há um mundo de diferença e ninguém tem a certeza sobre o que vai acontecer. O programa de Hollande, na verdade, está muito mais tapado do que parece. Nem o próprio sabe bem como vão correr as coisas.

Para já, a partir de agora tem um novo hábito matinal: quando se levantar vai ter sempre o olho nos juros da dívida pública francesa, o que não deixará de o influenciar um pouco. Não que os juros estejam a subir, não estão, pelo contrário – essa é a boa herança de Sarkozy, que conseguiu manter os juros franceses coladinhos às bunds alemãs. No entanto, daqui para a frente a música é outra. O mercado – o ponto de encontro entre compradores e vendedores –, detesta dúvidas e, neste momento, não lhe faltam razões para algum ceticismo.

 

O pacto fiscal da Zona Euro vai ser posto em causa por Hollande? As políticas de austeridade made in Germany vão ser todas atiradas para o lixo pela Europa fora?

São estas as duas questões magnas, mas há muitas outras. Para já, embora algumas bolsas estejam a cair com mais força do que outras – o que não tem só a ver com Hollande, mas especialmente com a Grécia –, não há nenhuma revolução em curso. Se a indefinição na Grécia não provocar um tsunami (o que é bem possível, veremos), então Hollande terá tempo para calibrar melhor as suas posições.

O que significa isto? Ora bem, além de ter como meta as obrigações europeias (um projeto vital para a Zona Euro, mas a médio prazo), é realmente importante que Hollande consiga convencer a Alemanha a concretizar estes três pontos:

1. Mais um ano, até 2014, para que os países da Zona Euro atinjam o défice público de 3%. Este espaço de manobra não põe em causa a urgência de cortar a despesa pública, apenas torna esta necessidade mais razoável e equilibrada. Razoável porquê? Porque dá algum espaço de manobra aos diferentes governos para baixar um pouco os impostos (o que ajuda a reacender a economia) ou pelo menos a não subir mais a carga fiscal asfixiante;

2. Convencer a Alemanha a tolerar mais um pouco de inflação interna sem entrar em pânico. Ou seja, mostrar à sr.ª Merkel que os salários na Alemanha têm de subir a sério, talvez 5% ou 6%, o que levaria o país a consumir e a importar mais. A correção dos desequilíbrios competitivos europeus passa, numa primeira fase, por isto: pôr os alemães – e os outos países excedentários – a gastar mais e os outros a poupar. Só assim Portugal, Espanha, Itália, etc., sairão da recessão mais depressa. Além de convencer a Alemanha a suportar mais inflação (o que será um milagre) é ainda imperioso que o Banco Central Europeu não suba os juros – por causa da inflação alemã – e até os possa descer um pouco mais;

 

3. Finalmente, desenvolver um programa pan-europeu de crescimento, em grande parte financiado pela UE e pelo Banco Europeu de Investimento, que não passe exclusivamente por grandes obras públicas. Infelizmente, é isso que está sobre a mesa. As grandes obras públicas, embora ajudem a criar emprego imediato, não resolvem nada de estrutural e, para países como Portugal, reforçam os desequilíbrios externos – as grandes obras, como o TGV, beneficiam as multinacionais alemães e francesas e criam emprego pouco qualificado. Portanto, não basta ter uma agenda de crescimento, esta agenda não pode em caso algum cometer os erros das anteriores.

E pronto, é isto que François Hollande tem de revelar. Para já, tudo isto ainda está coberto com um véu tentador. Por baixo, já vimos uns flashes muito, digamos, picantes – política de esquerda versão hard core –, mas na verdade não vimos nada de concreto. Agora é que é a sério. O novo presidente francês tem de mostrar que, de facto, a austeridade sem outro horizonte é como a Playboy rodeada de pudores. Assim, não vale a pena.

 

Fonte: Dinheiro Vivo

publicado por *Patricia* às 04:39
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